domingo, 3 de agosto de 2014

Santana (1969)



"Santana cravou, ao longo de sua carreira, um número relevante de clássicos. Na verdade, até Moonflower, de 1976, a discografia de Santana, a banda, e de Santana, o artista solo, beira a perfeição, com uma alta média de qualidade. Os anos de 1980 foram infelizes para o guitarrista (mas quem, entre os medalhões da década anterior, não chafurdou na lama nos anos de 1980?), e os de 1990 o consolidaram na condição de dinossauro, importante pelas façanhas passadas, mas pouco relevante naquele momento. Só no final desta última década, Santana recuperou seu peso comercial, voltando a vender discos aos milhões (mesmo já na crise do formato CD), mas produzindo peças que não entusiasmaram seus fãs dos primeiros tempos.

Apesar desta longa trajetória, e com discos irretocáveis, como já observado, sobretudo ao longo dos anos de 1970, bastariam a trilogia inicial da discografia para colocar Santana no panteão das grandes bandas da história do rock. Santana (1969), Abraxas (1970) e Santana (1971, mais conhecido como Santana III) seguem estabelecendo um padrão com o qual toda banda de rock, independentemente de estilo, precisa se medir.

“As pessoas veem várias razões para nossa popularidade (…), mas a principal razão, a motivação primeira para as pessoas saírem de casa para nos ouvir ou para comprar nossos discos é o grito”, disse uma vez Carlos Santana numa entrevista à revista Rolling Stone. A mesma revista, contudo, explicava que por trás do grito dos sustenidos da guitarra de Santana estava uma mistura de congas, timbales e tambores em geral com a potência eletrificada do rock’n’roll, um som jamais ouvido antes. De fato, o som da banda remetia a diferentes audições do jazz latino que chegou aos EUA a partir dos anos 40, das endiabradas brass bands cubanas que cruzaram a fronteira do estado da Flórida e penetraram nas madrugadas das metrópoles norte-americanas, da música negra que invadiu as rádios durante os anos 60 e das vertentes mais experimentais do rock contemporâneo (alguém falou aí Jimi Hendrix?). A sonoridade de Santana, plasmada na guitarra de Carlos, no órgão Hammond B3 de Gregg Rollie e na seção rítmica massacrante, era uma síntese dessas influências.

Esta sonoridade, hoje inconfundível, não veio, é claro, pronta. Uma tal abrangência de influências, além da inesperada introdução do jogo de cintura latino no rock sem cintura, levava a banda, antes de chegar ao disco, a se notabilizar por longas sessões de improviso quase jazzístico, em temas complexos e anticomerciais. O grande trabalho do maestro Albert Gianquinto, que arranjou o primeiro e o segundo discos, foi o de manter as complexas viagens instrumentais, mas recortadas num formato pop, na média de no máximo 4 ou 5 minutos por faixa. Esta medida, que originalmente visava a tornar a banda “tocável” no rádio, acabou por formatar as características básicas do som da banda, em primeiro lugar a capacidade de ser complexo sem ser chato nem reiterativo, males que afligiam boa parte das bandas mais inovadoras do final dos anos de 1960. Ao vivo, entretanto, Santana nunca abandonou as longas e empolgantes jam sessions de sua fase pré-discográfica.

PRIMEIRA CARTADA: SANTANA (1969)

Quando Santana embasbacou o mundo em agosto de 1969, com sua massacrante versão de “Soul Sacrifice”, no Festival de Woodstock, o álbum de estreia da banda já tinha vendido feito bolo em fim de feira no mercado americano, e “Evil Ways”, single extraído do disco, tinha se tornado viral na programação das emissoras de rádio. Woodstock, sobretudo o filme e o disco triplo, ambos de 1970, apenas internacionalizaram a popularidade de Santana.

“Evil Ways”, composta por Sonny Henry, foi aliás a música que detonou o processo criativo de Santana (1969), com sua mescla de balanço latino, eletricidade instrumental e uma melodia cativante, um single perfeito. Como explica Carlos Santana, o formato, com uma ligeira intensificada na componente rock da coisa, originou “Waiting”, faixa instrumental que inicia abusadamente o disco.

Mas a coisa entre em ebulição mesmo é com “Savor”, desembestada rumba elétrica puxada por uma percussão absurdamente pesada e rebolativa, sobre a qual Carlos e Gregg estraçalham em solos de órgão e guitarra de acordar o condomínio. Não por acaso, a faixa emenda com a não menos estraçalhante “Jingo” que, é verdade, é mais reflexiva, mas não perde a pegada rock’n’roll num back ground de tambores insanos. O medley das duas faixas no vídeo conhecido como “Tanglewood/Bill Graham Presents” dá uma ideia da intensidade desta sequência clássica. E para não deixar o ouvinte respirar, a banda emenda “Persuasion”, na qual a interação eletro-percussiva prossegue armando a cama para os voos solo de Carlos Santana e Gregg Rolllie.

Finalmente o pobre ouvinte tem um momento de relaxamento com a finíssima “Treat”, onde a percussão abolerada está à serviço de uma levada classic soul, com uma lindíssima evolução de Rollie ao piano elétrico. Santana arremata tudo com um de seus primeiros solos languidamente românticos que fizeram sua fama posterior. “You Just don’t Care” é um blues com guitarra e órgão, tão ao gosto da época. Energética, a faixa prepara a entrada do ápice do disco, com “Soul Sacrifice” que encerra esta primeira cartada de Santana.

“Soul Sacrifice” é talvez a faixa mais emblemática de toda a carreira de Santana, tendo sido, por anos, o ápice de seus concertos. Começa discreta com um riff de baixo, para depois deixar entrar a harmonia ao órgão. Pouco a pouco, a percussão vai ocupando seu lugar e, finalmente, o tema guitarrístico é tocado, para se repetir até o fim da faixa, mas somente depois de derivar em várias direções, no que um dia foi um improviso jazz rock. É como se Santana aplicasse a uma peça rock o método de “Ravel” no seu Bolero. A versão original, presente no disco de estreia, é arrasadora, mas a performance de Wodstock é que se tornará eterna por saeculum saeculorum.

O disco alcançou o quarto lugar no Billboard, e permaneceu na lista dos mais vendidos por 108 semanas. O single “Evil Ways” chegou ao quarto lugar, ficando entre os mais vendidos por 13 semanas.

Era só o primeiro disco, mas cabia perguntar: o que mais poderia vir pela frente? (...)"

(http://consultoriadorock.com/2013/12/25/santana-uma-trinca-de-ouros-para-a-eternidade/)

Disco e capa em ótimo estado.
Edição Brasileira 80´s.
Saindo por R$ 30


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